Técnicas de entrevistas
Técnicas de entrevista em rádio e televisão

Prof. MS Pedro Celso Campos
         Em “Telejornalismo”, Albertino Aor da Cunha (São Paulo: Atlas, 1990) observa que o repórter nunca deve completar frases do entrevistado ou falar ao mesmo tempo que ele, nem estimulá-lo através de gestos, expressões faciais etc. Deve deixar o julgamento do mérito para o telespectador ou para o ouvinte (no caso do rádio). Deve ser discreto e simpático, usando sempre a terceira pessoa. É aconselhável não partir para temas paralelos que não domina perfeitamente: o entrevistado poderá levantar questionamentos que o repórter não domina e assim não terá meios de continuar a entrevista.
          A pergunta é influenciada pelo modo como o entrevistador se comporta e isto envolve a comunicação silenciosa dos gestos, a expressão facial, a atenção concentrada, até o modo como o repórter está vestido, em determinadas situações. Na verdade o repórter pergunta também com o corpo, por isto precisa aprender a controlar o nervosismo, deixando o corpo em posição descontraída, soltando os braços e as pernas.
          Há repórteres de vídeo que parecem não saber onde por as mãos. Outros procuram equilíbrio apoiando-se num pé ou no outro, prendendo o eixo postural, comprometendo, assim, a fala. É preciso patrulhar o comportamento do corpo e instruí-lo a não refletir os medos do repórter.     A criatura humana é dinâmica, é movimento, é ação. A segurança, a confiança, o equilíbrio revelam a personalidade do bom repórter no vídeo. Daí a necessidade de estar bem preparado para o que vai falar.  Estando bem preparado, bastará respirar fundo e transmitir sua empatia, com olhos brilhantes e firmes, direcionados para a lente da câmera. Ela substitui a íris do telespectador em casa. As palavras devem ser pronunciadas com clareza e decisão: É “levar” e não “levá”; “trazer” e não “trazê”; “terceiro” e não “tercero”; “Brasil” e não “Brasiu”; “chover” e não “chuvê”; “nascer” e não “naiscer”; “poder” e não “pudê”; “renovar” e não “renuvar”; “precisa” e não “pcisa”; “circuito” e não “cirqüito”...
          Quem vive da voz - na TV e no Rádio - deve cuidar da impostação (colocação e projeção), evitando as trocas de L por R, de R por L e todos os vícios de linguagens como repetições, cacófatos, rimas e tudo que revele desconhecimento da língua.
          O entrevistado sentirá firmeza se a pergunta tiver conteúdo, se for adequada, inteligente, se revelar conhecimento do assunto. Por outro lado, caberá ao repórter conduzir a entrevista de modo que o entrevistado não se disperse, nem se alongue demais, especialmente nas transmissões ao vivo. Mesmo nas produções gravadas, esse cuidado é necessário para não atrasar a edição do material. É complicado ver horas de gravação para retirar três ou quatro minutos. Ninguém tem tempo a perder. É preciso achar o meio termo: nem imagens de menos, nem imagens demais.
          Em muitas situações, a entrevista de rádio ou de TV intimida o entrevistado. O repórter pode perceber que o entrevistado está com o tórax encolhido, sentindo-se dominado, às vezes até paralisado, pela situação, com o “eu” diminuído, retraído, submisso. Um repórter experiente sente as vibrações que o entrevistado emite durante suas respostas. O aumento da respiração revela tensão e forte emoção. Os suspiros indicam ansiedade e angústia. As sobrancelhas abaixadas indicam forte reflexão sobre a resposta e a seriedade com que a dará.  As sobrancelhas levantadas indicarão surpresa, espanto, alegria. O entusiasmo também é revelado pelos olhos brilhantes. A leitura dos lábios revelará sua dúvida, sua contrariedade, até sua raiva. Lábios comprimidos revelam o propósito firme de defender-se das perguntas.
                                                                                                                                   

Segundo Juarez Bahia ( "Jornal, História e Técnica - História da Imprensa Brasileira". São Paulo: Ática, 1990 ) um dos requisitos mais importantes, na entrevista, é a autenticidade, isto é, que as declarações atribuídas ao entrevistado possam ser facilmente provadas.

Carlos Tramontina ( "Entrevista". Rio: Globo, 1996 ) lembra que todo entrevistador faz a mesma coisa: perguntas. Mas cada um desenvolve um estilo próprio, prepara-se de maneira diferente e usa de variadas estratégias para conseguir boas respostas. Afinal, não há boa entrevista sem bom entrevistador.


"Entrevistar não é somente fazer uma pergunta, esperar uma resposta e juntar à resposta outra pergunta. É um exercício profissional trabalhoso e ingrato. Quase sempre quanto maior é o interesse do jornal em conseguir a entrevista, menor o do entrevistado em concedê-la, e vice-versa. Na medida em que cresce o interesse do jornal, crescem também os problemas do entrevistador", garante Luiz Amaral (Jornalismo - Matéria de primeira página; Rio, Tempo Brasileiro, 1997), citando, em seguida, Joseph Folliet (Tu seras journaliste; Lyon, Chronique Sociale de France, 1961): Esse gênero exige muita intuição, delicadeza, perfeito conhecimento do assunto, do entrevistado, de sua vida e de sua obra, uma grande probidade - um exterior, enfim, que inspire confiança e incite à confidência.
          Quando o entrevistado está sentado, o queixo apoiado nas mãos exprime a espera paciente e desafiadora pela próxima pergunta, ou até mesmo sua surpresa e desaprovação. As pernas cruzadas exprimem desembaraço. O sorriso seco antes das respostas pode ser pura educação, não se harmonizando com a fala a seguir. Os punhos cerrados indicam agressão. O acanhamento, o receio, o tom baixo da voz indicam fraqueza psíquica. Já a franqueza, o interesse e a coragem revelam vigor psíquico.
          As mãos atrás das costas tentam esconder o estado de tensão. Se contrariado, o entrevistado, quando sentado próximo de uma mesa, poderá começar a brincar com um objeto qualquer, tentando parecer natural. Também estará dissimulando a contrariedade tocando suavemente as pontas dos dedos de ambas as mãos.
          É através da imagem televisiva que o telespectador sabe o que o entrevistado está fazendo ou pensando. O conhecimento dessas reações amplia o alcance da informação que o repórter tenta passar com a entrevista. Muitas vezes o silêncio fala mais alto que a resposta a uma pergunta bem colocada.
          Se não entender uma resposta, o repórter deve perguntar novamente, pois é possível que o telespectador também não entenderá. As perguntas não devem ser adiantadas para o entrevistado antes de começar a gravar. O fator surpresa obrigará o entrevistado a responder cada uma com naturalidade, sem ensaiar.
          Nas matérias gravadas, o repórter faz a primeira pergunta e não retira mais o microfone da boca do entrevistado. As perguntas são feitas em off. Depois elas serão gravadas à parte, no mesmo ambiente, de preferência sem a presença do entrevistado. Nessa ocasião é permitido corrigir algum erro de português ou de dicção, mas não se pode mudar a essência da pergunta. Não seria ético.Em seguida grava-se a “cabeça” (abertura) da matéria. O melhor é o repórter memorizar o texto curto da “cabeça”, evitando usar a “dália” (cópia do texto colocada ao lado da câmera). Isto modifica o olhar do repórter e dá ar falso à apresentação. No estúdio há equipamento próprio, o tele-prompter, que produz cópia eletrônica do script sobre a câmera, para os apresentadores lerem olhando diretamente nos olhos do telespectador.
          Ao gravar sua abertura, passagem ou encerramento, o repórter deve prestar atenção no “fundo de tela” que terá atrás de si. Não é bom surpreender-se, na correria do fechamento do jornal, já na emissora, com árvores, postes ou frases muito estranhas brotando da cabeça do repórter ou do entrevistado. Quando o ambiente está muito tumultuado é aconselhável procurar um lugar mais calmo para gravar, mas que revele o tom geral do ambiente, pois fechar-se numa sala para falar sobre uma festa é o mesmo que fazer isto no estúdio, isto é, fica monótono, burocrático, sem vida. O ruído ambiente faz parte da matéria, desde que não cubra a fala do repórter ou do entrevistado, tanto para o Rádio como para a TV.
          Algumas orientações básicas para Rádio e TV:
·Não usar gírias
·Não usar expressões vulgares
·Não usar palavras muito técnicas
·Não usar a forma indireta
·Não intercalar frases
·Não florear o texto com adjetivos e palavras supérfluas
·Não começar a frase com algarismos
·Não fazer rodeio: ir direto ao assunto
·Não usar palavras estrangeiras
·Não repetir palavra na mesma frase
·Não usar siglas sem explicar o significado


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